O aviso é claro: fique em casa. Daqui a pouco até a indústria de cigarros produz um lote assim "O Ministério da Saúde adverte: perambular é prejudicial à saúde.
Condicionada a gerar resultados e treinada a cumprir metas, cá estou temporariamente desligada ou fora da área de serviço, alumbrada feito a Macabéa com tanto tempo livre de ter prazer comigo.
Cercada de livros e discos me sinto abastecida pra esse retiro espiritual forçado. Aliás, já ficou claro pra mim que o mundo há tempos entrou em colapso, inclusive a humanidade revela indícios desse quadro muito antes do vírus.
Pois é, infelizmente, colaboramos pra isso. De toda forma, com os templos fechados é aconselhável que repita do seu canto isolado: minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.
Castigo piorado pra quem votou no Bolsonaro, claro.
Afinal, é provável que esse povo nunca mais consiga botar a cabeça no travesseiro sossegado, constantemente assombrado pela voz da consciência que repete essa ladainha com a mesma frequência do número de infectados: minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.
Representado por um libélula deslumbrada, o Brasil dispara no ranking mundial da criação de memes, Literatura Fantástica na estante ficou escassa, a onda agora é distopia em tempo real.
Nada mal pra quem gritou mito e fez gesto de arma com as mãos. Bem lavadas ou não, vocês afundaram a nação sem máscara e piedade.
O aviso era claro: ELE NÃO. Agora aguenta calado, engole o grito, chora o mito consagrado, lava bem as mãos com água e sabão, junta elas em oração e reza pra não morrer infectado ou pelo menos pra sobreviver a próxima eleição.
Fica a lição, pela dor, infelizmente. Teimosia besta dessa gente de só aprender as coisas assim.
Ivana Chaves
há dias nos quais é preciso viver pra dentro.
do mundo,
da casa,
do quarto,
das horas,
da gente.
pro silêncio ser morada segura.
pras palavras colonizarem.
pra esperança não desviver.
é nestes dias que minha voz mora em nomes bonitos.
indispensáveis.
mãe, poesia, manga, livro, amor, água gelada, pipoca, visita, esperança, cura, carambola, filha, café, verdade, alma, saudade, carinho, crença, limão...
minha voz mora no que abranda os dias.
é uma escolha.
uma sentença.
um destino.
é enxergar dentro de si um caminho. uma estrada que começa com o som do saxofone do vizinho na varanda. ou na gargalhada da mulher já cedo. ou na velhinha de estimação dando um sorriso antes de o sol acordar.
eu moro nas palavras.
não só minha voz.
eu.
inteiro.
me aumento delas.
me ergo por elas.
por cada uma proferida.
quando mais teço, quanto mais quebro o silêncio, mais pra dentro de mim eu vejo.
eu vivo.
decidi esquecer: as prateleiras vazias, as ruas sem ninguém e as avenidas com alguéns. os shoppings centers de portas fechadas, as escolas abandonadas e os pedidos de um político decente por ajuda para um povo mouco.
vou me alimentar de esperança. da esperança ingênua de que em breve, muito em breve, espero, moraremos em dias melhores. pois é isso a esperança. uma ingenuidade. e é esse o carregamento do qual preciso. que - julgo - todos precisamos. agora. para ontem. anteontem. antes de tudo isso começar. até quando acabar. ou mesmo depois do fim.
um carregamento de esperança em toda a parte.
para toda as gentes.
de todas as cores.
de todos os continentes.
uma pandemia de esperança. não mais essa pandemia do medo. do invisível onipresente. da correria ao supermercado para tudo comprar para si e nada deixar para o outro, já que o importante sou sempre e apenas eu e não o outro também.
declaro de forma irrevogável que desisto da pandemia do desespero por todos os esterilizantes e todas as máscaras e todas as luvas e tudo o mais quando, de fato, a vida é tudo o menos, até (ou principalmente) nesta guerra contra o invisível onipresente.
bastam água e sabão.
desejo mesmo - como uma decisão igualmente irrevogável - é um contágio planetário da vontade de continuar. do sonho de ser semente da boa coisa. e sonhos são o que senão filhos da esperança?
tenho repetido isso dentro de mim. sonhos são filhos da esperança. sonhos são filhos da esperança. sonos são filhos da esperança. tal qual uma oração. tal qual uma fé. ou várias, uma para cada pedaço meu, de ontem, hoje e amanhã, se houver, vai haver, diante de toda essa incerteza.
minha esperança eu quero que seja que nem o esperanto. sim, o idioma de gramática simples e regular. uma tentativa de universalizar o futuro. todos precisamos dele, do futuro, nem que seja para a morte.
mas aqui, de dentro de mim, ele, o futuro, é uma gérbera sertaneja. um margaridão. um girassol. a flor que eu quiser. uma sentença para a vida. e a vida nasce da esperança. é irmã do sonho, ela.